TRADIÇÃO QUE SE RENOVA

Por Lucia Riccomi

Ao longo de quatro décadas dedicadas à Medicina, tive o privilégio de acompanhar de perto a evolução da cirurgia vascular — uma especialidade que, para mim, vai muito além da prática médica: é também uma história de família.
Meu pai, também foi cirurgião vascular, no Rio de Janeiro, minha cidade natal. Infelizmente, ele partiu precocemente aos 61 anos e, há quase 30 anos, seu legado continua entre nós. O tempo não apagou o que ele construiu. Ao contrário, sua presença permanece viva em cada decisão, em cada paciente, em cada gesto de cuidado. Ele era incrível!
A vida, com sua delicadeza, me trouxe um presente raro: hoje, é minha filha, Júlia, quem segue essa mesma trajetória. Também cirurgiã vascular, divide seu tempo entre São Paulo e Guaratinguetá onde construímos nossa história há 35 anos. Cada uma com seus compromissos, seus pacientes e sua rotina. Mas, ainda assim, compartilhamos muito mais do que o sobrenome e a profissão. Discutimos casos, dividimos o consultório, trocamos experiências — e, em muitos momentos, operamos lado a lado. É uma convivência que mistura técnica, confiança e, sobretudo, afeto.
A cirurgia vascular é uma especialidade ampla, que cuida das doenças das artérias, veias e vasos linfáticos. No dia a dia, grande parte dos pacientes nos procura por uma condição bastante comum: a insuficiência venosa crônica, isto é, as conhecidas varizes. Engana-se quem pensa que se trata apenas de uma questão estética. As varizes podem trazer desconfortos importantes: dor, sensação de peso nas pernas, cansaço, câimbras, inchaço, alterações na pele. Em estágios mais avançados, até flebites, tromboses e feridas.De acordo com a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular, cerca de 38% dos brasileiros apresentam varizes nos membros inferiores. São mais frequentes em mulheres, mas também atingem muitos homens e se tornam ainda mais comuns com o passar dos anos. Fatores como predisposição familiar, idade, longos períodos em pé ou sentado e o estilo de vida contribuem para esse conjunto de condições tão presente na nossa população.
As cirurgias tradicionais continuam tendo suas indicações, assim como a escleroterapia. Porém, atualmente, dispomos de tecnologias e técnicas que tornam os tratamentos mais precisos, menos invasivos e que possibilitam recuperações mais rápidas para que o paciente consiga retomar logo as suas atividades. Estamos falando de recursos modernos, como laser, radiofrequência e tratamentos com “espuma” — sempre escolhidos de forma individualizada, respeitando as necessidades de cada um.

O mesmo acontece com as doenças arteriais que, hoje, podem ser diagnosticadas mais precocemente e tratadas com procedimentos menos invasivos. Angioplastias, implantes de stents e endopróteses oferecem excelentes resultados e evitam procedimentos mais agressivos.
O lipedema é outro tema que vem ganhando cada vez mais atenção. Trata-se de uma condição crônica caracterizada pelo acúmulo desproporcional de gordura, principalmente nas pernas, muitas vezes acompanhada de dor, sensibilidade e impacto estético importante. Ainda subdiagnosticado, o lipedema exige um olhar atento e experiente. É importante destacar que há uma associação frequente entre lipedema e doença venosa. Isso torna a avaliação do cirurgião vascular ainda mais fundamental para um diagnóstico preciso e um tratamento adequado.
No fim das contas, o que mais me encanta na cirurgia vascular não é apenas a tecnologia ou a evolução científica. É a possibilidade de cuidar, de aliviar sintomas, devolver qualidade de vida e, muitas vezes, resgatar a autoestima. Talvez seja isso que conecte as três gerações da minha família: o olhar atento, o compromisso com o outro e a certeza de que cuidar, em todas as suas formas, é também promover saúde, bem-estar, leveza e beleza na vida das pessoas.

Dividir a minha rotina entre São Paulo e Guaratinguetá tem sido mais do que um desafio — tem sido um reencontro.
Depois de 11 anos de formação, incluindo três residências médicas e seis anos de atuação na cirurgia vascular, voltar à minha cidade trouxe um significado diferente para a minha trajetória. Foi um percurso longo, sem atalhos, mas necessário para que hoje eu possa exercer a Medicina da forma em que acredito: mais humana, honesta, consciente e responsável.
A cirurgia vascular me encanta por permitir atuar em múltiplas dimensões: salvar vidas, diagnosticar e prevenir doenças, curar outras tantas, aliviar sintomas, devolver qualidade de vida e também resgatar a autoestima porque saúde e bem-estar caminham juntos.
No entanto, para além da profissão, existe algo que torna tudo ainda mais especial. Ter a oportunidade de dividir essa jornada com a minha mãe, trocar experiências, discutir casos e, muitas vezes, estar ao seu lado dentro do centro cirúrgico. Isso dá um novo sentido ao meu trabalho.
Dar continuidade a essa história, construída ao longo de gerações, é algo que faço com muito entusiasmo, responsabilidade, propósito e um profundo respeito pelo caminho que nos trouxe até aqui.

Julia G. C. Riccomi Azzi
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