Por Ivan Reis
Há tempos, o cinema vive do passado. Em meio à fase delicada de Hollywood, não é difícil ver o retorno de personagens, falas e cenas marcantes – e o mundo da moda não fica de fora. Em O Diabo Veste Prada 2, filme dirigido por David Frankel, Andrea Sachs, vivida por Anne Hathaway, retorna à revista Runway para salvar a diretora Miranda Priestly (Meryl Streep) e a publicação das garras do mundo digital. Isso mesmo – o jornalismo está em crise (e há alguns anos!). “Gird your loins!”
Vinte anos depois, a Runway não é mais uma redação movida ao som dos saltos altos e pelo silêncio do medo. O glamour ainda tem brilho, mas é digital, dependente de likes, anunciantes e engajamento. O reencontro entre Miranda Priestly, Andrea Sachs, Nigel e Emily é um deslumbre para quem conheceu esse universo. Meryl Streep retorna com a mesma precisão glacial e polida. Stanley Tucci ainda rouba cenas com ironia sofisticada. Anne Hathaway vive uma protagonista mais madura e menos deslumbrada. Já Emily Blunt deixou de ser assistente e surge como executiva da Dior – o retrato de uma geração que aprendeu a transformar sobrevivência em poder.
É inegável que o filme faz inúmeras referências à primeira produção de 2006. Desde os cintos difíceis de escolher, o suéter azul, as frases quase parecidas e a fotografia do clima urbano de uma Nova York incansavelmente fashion. Repetitivo para alguns. Confortavelmente nostálgico para outros.
Entre as adaptações do enredo para o nosso tempo, a crise do jornalismo salta aos olhos. “A Runway não é mais uma revista. É um portal com notícias e redes sociais. A edição impressa ninguém mais compra”, disse Nigel sobre a publicação que ganhou uma disputada edição real graças à ação de marketing do filme. A fala resume a transformação do mercado editorial. A cultura digital alterou formatos de conteúdo; reconfigurou relações, dissolveu hierarquias e submeteu o trabalho jornalístico à lógica algorítmica. A rotina de uma redação – na maioria das vezes, remota – tem outra feição nessa dinâmica. O impresso ainda existe, resiste e virou um item de luxo. Afinal, no bombardeio de informações e tarefas do cotidiano, a pausa para a leitura de uma bela revista com textos e imagens apurados é um privilégio.
Por quase três anos, tive a oportunidade de escrever para uma revista de moda de circulação nacional que, infelizmente, se retirou do Brasil (saudades, time!). Os números assustam, a velocidade da informação pede atenção e preparo. A velocidade da apuração exige dedos rápidos sob o teclado e repertório constante. Tudo a favor do leitor – como sempre foi o bom jornalismo.
Na realidade das telas, há momentos bons, sutis e que resgatam os sentimentos de uma geração. Há lembranças de tempos embrionários de um jornalismo de moda que estava para florescer. O público que lotou as salas e publicou looks caprichados nas redes sociais era o mesmo que queria rever aqueles personagens vinte anos depois, com novas companhias de elenco afeitas à diversidade contemporânea.
Das produções minimalistas e maduras de Andrea à extravagância dark de Emily, a competência de Molly Rogers diz o máximo com o mínimo. A figurinista do filme e discípula de Patricia Field – responsável pelos looks do primeiro longa e pela construção do figurino de produções do quilate de Sex and The City e Emily em Paris – investe em acessórios e em passagens que tratam de personalidade e suas camadas. A informalidade de Miranda nos Hamptons revela um lado mais humano, flexível e (por que não?) afável que complementa um diálogo com o olhar para Andrea em um dos momentos-chave da continuação. Pistas do diretor? Pode ser, mas talento entra nessa receita que deu muito certo.
Nessa ciranda de peças e tipos, a moda se transforma e acompanha o tempo. Um ritmo contínuo, às vezes complicado, porém encantador. Uma das cenas mais emblemáticas – além da transição dos looks de Andrea e Miranda na semana de moda de Milão, em clara referência ao primeiro filme – é o segundo assistente de Miranda. A presença de um corpo masculino fora do padrão tradicional da moda não surge como caricatura. O recado, ainda que pontual, conferiu ao ator Caleb Hearon, na pele de Charlie, a chance de lançar luz sobre a questão.
As movimentações empresariais da trama reforçam outro aspecto central do mercado editorial contemporâneo. As revistas deixaram de ser projetos criativos e passaram a funcionar como ativos estratégicos. A Runway desencadeia um jogo corporativo agressivo que estabelece relações de poder e egos inflamados. O marido de uma das personagens tenta utilizar a publicação como peça de um golpe empresarial milimetricamente equacionado. É quase um thriller difícil de despregar os olhos.
No fim, O Diabo Veste Prada 2 não supera o original – e talvez nem queira e precise. Há uma delicadeza melancólica na forma como o filme olha para o passado sem reproduzi-lo integralmente. A produção revisita suas cicatrizes, observando um mercado que envelheceu com seus personagens — e com quem escolheu trabalhar com moda e jornalismo. Nenhum closet recheado supera ideias e experiências amadurecidas pelo tempo.
“That’s all”.
Ivan Reis é redator de sites e revistas de moda, como Mensch, Elle Brasil e JLS Magazine. É docente do curso ‘Jornalismo de Moda: da pauta ao texto jornalístico’, na Faculdade Cásper Líbero – SP.
Instagram: @reisivan2 | [email protected]




