MEMÓRIA NA QUARENTENA

O artista plástico e historiador da arquitetura barroca brasileira e sul-americana Percival Tirapeli aproveitou esses seis meses de quarentena para concluir uma obra que estava faltando em sua vasta bibliografia em centenas de trabalhos publicados – suas próprias memorias!

Conversando com o Site JLSOCIAL Percival revelou, com exclusividade, o conteúdo de suas memorias ligadas à região do Vale do Paraíba pois além de inúmeras obras de arte com temática regional e livros específicos sobre a arquitetura e urbanismo da região – cursou o seminário Santo Afonso, nas cidades de Aparecida e Guaratinguetá.

O autor comenta “A pandemia me pegou de surpresa, como a todos. Cheguei de Ouro Preto, dia 13 de março, com um importante projeto para o ano todo. E outros já com datas marcadas: no mês de agosto, lançaria o livro, “Arte e Fé – Igrejas de São Paulo”, como organizador com 20 articulistas e 60 igrejas já analisadas. No mês de setembro, lançaria “Arte dos Jesuítas na Ibero-América”, pelos 480 anos da Fundação da Companhia de Jesus por Santo Inácio de Loyola mas o livro já diagramado, ficou para dia 25 de janeiro de 2021, Fundação de São Paulo”.

Em isolamento social e quarentena em sua casa na Serra da Cantareira Percival encontrou manuscritos das memorias de sua infância em Nhandeara, sua cidade natal. Personagens, amigos, família e lembranças – “Li bastante Machado de Assis, e me inspirei em contos e comecei a dar voz às coisas, às jabuticabas, às mangas, às flores de algodão, até com um pouco de sensualidade. Os melhores trechos, são aqueles de quando era coroinha pois me levou a olhar para as pessoas e imaginar o que elas confessavam – o padre da minha terra era terrível, espanhol, só falava de inferno – e foi divertido pois minha irmã mais velha, Nair, me contou todos os causos escabrosos, mortes, traições, suicídios e tantos outros causos, que não poderia colocar os nomes e aí os santos começaram a falar com essas pessoas e eu ouvia tudo”. Além de Machado, releu Ulisses, de James Joyce e a partir daí textos foram surgindo com as mesmas cores fortes de seus pinceis sobre as telas – e há passagens incríveis “descrevi minha primeira visita que fiz até Aparecida, de pau de arara, em 1958. Ficamos no Hotel São Jorge, tirei fotos com o jacaré na fonte do Hotel Recreio, vi a basílica nova sem a torre. Como o livro é sobre as coisas da infância, termino o livro com minha ida ao Seminário de Santo Afonso, em fevereiro de 1964. Foram três dias de retiro. Não entendi nada. Mas tive uma noite de gala, um concerto na casa da Família Barreto, de músicos locais, que foi inesquecível: a sala nobre, o piano, os móveis de época, e só para mim, eles tocaram valsas, polcas, eu moleque, aos onze anos de idade, caipira me alegrei”.

E completa “Cheguei no seminário das Pedrinhas em Guaratinguetá dia 31 de março de 1964 só ouvia os aviões passaram sobre nossas cabeças. Era a gloriosa. A ditadura começava”. Segundo o autor, o livro sairá em setembro de 2021, para ser lançado durante um baile, dos filhos que saíram de Nhandeara para ganhar o mundo. E, como sempre começará tocando Ray Conniff.

Percival Tirapeli
Divulgação
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