O VALE DE GUTO LACAZ

Em seu livro “Esquecer para lembrar”, Carlos Drummond de Andrade nos oferece um verdadeiro auto-retrato psicológico, um painel de uma época vivida, a lembrança, a percepção. Lembrei muitas vezes desse livro ao ler “Ouvi e Ri” de Guto Lacaz, numa versão bem humorada do lirismo mineiro Drummondiano, e contado de uma forma saborosa. Os textos de Guto têm o mesmo bom humor inteligente de muitas das suas famosas obras. Momentos fotografados com um olhar atento de quem um dia esqueceria para relembrar em forma de doce memória ao se referir a Guaratinguetá ou São José dos Campos.

Conhecido internacionalmente como um artista multimídia, ilustrador, designer, desenhista e cenógrafo, Carlos Augusto Martins Lacaz – leia-se Guto Lacaz – tem se revelado também de brilhante inspiração na arte literária. Já são vários os trabalhos publicados, como o recém lançado “Futuro”, numa única página, com quatro poemas.

Mas foi no primeiro semestre desse ano, que o artista escreveu, publicou e distribuiu o seu “ouvieri” – com relatos delirantes de coisas que ouviu ao longo de sua vida.

Com infância e adolescência passadas quase integralmente em Guaratinguetá, e tendo cursado a faculdade de arquitetura em São José dos Campos, essas duas cidades da região estão presentes no livro nesses relatos vibrantes.

De origem mineira, a família de Guto Lacaz estabeleceu-se em Guaratinguetá a partir de seus avôs Judith Limongi Lacaz e Rogério da Silva Lacaz, este um brilhante professor de matemática. Tal casamento gerou um verdadeiro “time de notáveis” que partiu de Guaratinguetá para o Rio, São Paulo, Brasília, mas mantém, até hoje, naquela cidade, o velho casarão da família, datado do final do século XIX, restaurado, com um verdadeiro relicário de móveis, objetos e boas lembranças de toda a família. O “mágico chalé da Rua da Estação onde morava minha avó Judith”, como Guto costuma dizer.

Se talento, inteligência e criatividade são dons hereditários, o DNA de seu pai, Carlos da Silva Lacaz, guarda essas e outras explicações. Casado com Dona Dinah, Carlos Lacaz foi professor e diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, onde fundou o Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, cidade onde foi secretário da saúde do prefeito José Carlos Figueiredo Ferraz de 1971 a 73.

A convivência de Guto com os tios também pode ser considerada uma escola: Rogério Lacaz Filho foi dentista, músico e artista plástico; Francisco Lacaz Neto (Chico Lacaz) , cientista e matemático, foi professor e reitor por duas vezes do Instituto Tecnológico da Aeronáutica de São José dos Campos; Paulo da Silva Lacaz, médico e professor de medicina da Faculdade Federal do Rio de Janeiro; José da Silva Lacaz, músico e escritor, lecionou em faculdades de medicina e veterinária em vários locais do país. Com uma família dessa, quem precisaria ir à escola?

Guto nos conta que são muitas e boas suas lembranças de Guaratinguetá. As sessões nos cinemas Urânio e Central, os memoráveis bailes dos clubes Literário e SABAP, onde “debutantes dançavam ao ritmo de Os Três do Rio ou o Modern Tropical Quintet”. Havia ainda “as longas conversas na casa do Dr. Sette e as tardes no atelier-consultório do Tio Rogê”, referindo-se ao tio Rogério, dentista e escultor.

Quanto a São José dos Campos, sua vivência foi a de um estudante numa típica república universitária, de 1969 a 1974.

Guto comenta “virei gente em São José – fui morar em república o, que foi uma luz para um rapaz tímido como eu”

Por tudo isso, histórias e estórias interessantes é que não faltam nesses flash-backs divertidos de sua infância, adolescência e juventude nessas duas cidades do Vale. Passagens que Guto Lacaz ouviu, riu, publicou, e JLS Magazine reproduz aqui na íntegra pra você se divertir também.

LEMBRANÇAS PARA LER E RIR…

Reproduzimos na íntegra e em ordem de publicação os trechos do livro de Guto Lacaz referentes a Guaratingueta e São José dos Campos.

“Tio Chico era professor de Matemática no ITA, em São José dos Campos.Certa vez, na casa de minha avó Judith, em Guaratinguetá, ele nos descreveu uma escultura que um aluno havia feito para criticar as aulas de outro professor.

Era um arame vertical que, em determinado ponto, se embaraçava todo, depois seguia reto novamente para o alto, onde encontrava uma chapa horizontal, presa ao teto por uma linha. Assim o aluno explicava sua obra: “a aula do professor tal é sem base, comprida, confusa e, ainda por cima, chata!”


“Tio Chico era tido como gênio.

Então, ficava sempre aquela distância… Publicou pelo ITA sua solução para o Último Teorema de Fermat. Pensava eu: “…preciso fazer uma pergunta pro tio Chico, pra mostrar que eu sou inteligente e, assim, tentar iniciar um diálogo com ele”.

Na Faculdade de Arquitetura, havia uma discussão acadêmica sobre a diferença entre invenção e descoberta. Decidi que essa seria uma boa questão para que, nas férias, na casa de minha avó Judith, quando eu o encontrasse, após respirar fundo, fizesse a tal pergunta.

Passaram-se seis meses, chegaram as férias, chegou o dia, chegou a hora, chegou o momento.

– Tio Chico, eu tenho uma pergunta pra fazer pro senhor: Qual a diferença entre invenção e descoberta?

Balançando na rede, sem se alterar, resmungou:

– Isso não tem nenhuma importância!”


“Meu primo Wilson, conhecido pelo apelido de Mono, mora em Guaratinguetá, no Vale do Paraíba. Casou-se com Lúcia e, naquela época, anos 60, era chic passar a lua de mel em Santos. Para lá fora o casal.

Na volta, três dias depois, resolvem passar em nossa casa, em São Paulo, para uma visita a meus pais.

Surpreso, meu pai exclama: – Ué, Mono… vocês não iam ficar uma semana?

E Mono: – Ah, tio… lua de mér cansa!”

**

“Quando estava no ginásio, arranjei uma namorada, a Maria Alice, que era tímida como eu. Ela passava as férias em Guaratinguetá como eu e morava em São Paulo como eu.

Mas eu não sabia bem o que fazer com ela, não sabia como namorar, pois, naquela época, anos 60, não se podia fazer quase nada com uma namorada. Era mais um problema que uma solução.

Pedi então ao meu colega Célio Hugenneyer, o bonitão da classe, para me orientar. Pedi mais, que ele fosse comigo ao meu primeiro encontro e começasse a conversa. Confiava que ele soubesse como conduzir os trabalhos…

Marcamos no Clube Banespa, do qual Maria Alice era sócia, na Av. Santo Amaro, no Brooklin.

Chegamos adiantados e aguardamos a chegada de Maria Alice.

Ela chegou, nos cumprimentamos, e apresentei o Célio a ela.

Silêncio…

Silêncio…

Depois de um tempo, o Célio falou: “Você toca algum instrumento?”


“Minha querida prima Vilma, premiada decoradora é a filha única de um casal originário da Tchecoslováquia. Seus pais falavam cinco idiomas, incluindo grego e latim; eram químicos e industriais de sucesso. Vieram para o Brasil quando a Tchecoslováquia foi invadida pela ex-União Soviética.

Tia Quita era a mãe de Geraldo Cesar, então namorado de Vilma.

Na época do namoro, tia Quita queria saber se Vilma vinha de uma boa família, aquelas coisas…

Dizia que Geraldo Cesar, seu filho único, tinha que se casar com alguém do nível de um Meirelles, ou de alguma família tradicional de Guaratinguetá, o centro do mundo, na época.

Tia Quita não se conteve e, em tom arrogante, desafiou Vilma.

Prima Vilma, come il faut, contra-atacou: “Dona Quita, a senhora não sabe com quem está falando! Minha família vem do Império austro-húngaro e meus pais se formaram na Univerzita Karlova de Praga, fundada em 1348 por Carlos IV, Rei da Boêmia, portanto, uma universidade que já existia quase 200 anos antes de o Brasil ser descoberto!”.


“Estudei Arquitetura em São José dos Campos, entre 1969 e 1974. Morava na república Marcelândia, comandada por nosso querido Marcelo Arantes Ferraz.

Marcelão lia muito e, sempre que podia, interrompia sua leitura para compartilhar com os colegas alguma passagem que julgasse ser do interesse de todos.

Uma noite, estávamos desenhando, ele nos chamou a atenção, paramos. E leu: “Baudelaire dizia que, na lista dos direitos humanos, deveriam incluir mais dois: o de se contradizer e o de se retirar”


“Em Guaratinguetá, havia dois cinemas: Central e Urânio.

Um dia, minha prima Maria Teresa chegou em casa toda eufórica dizendo: “Vai passar Ali Babá Breve no Urânio!”


“Na Marcelândia, recebíamos a visita de alguns alunos do ITA e de algumas meninas. Uma delas, muito bonitinha, chamava-se Fabíola.Era loira, simpática e tinha um belo corpo. Era do tipo mignon.

Certa vez, um dos estudantes do ITA, o Bov, nos apresentou seus cálculos para transformar Fabíola em um mulherão.

Ele havia chegado ao que chamou de fator de conversão: se multiplicássemos todas as medidas de Fabíola por 1, xyz…”


“Em Guaratinguetá, era comum se dizer “Vai ter baile?” quando alguém era visto com o dedo enfiado no nariz.

Dizia-se que estava limpando o salão…

Foi assim com meu primo Lula, muito debochado, pego nessa situação:

– E aí, Lula? Vai ter baile?

Lula tirou a meleca, esticou o braço com ela na ponta do dedo e respondeu:

– Vai, qué um convite?


“Em São José dos Campos, existe um lindo acidente geográfico chamado Banhado.

Uma grande depressão em forma de arco, que permite uma vista panorâmica para o Rio Paraíba bem abaixo e bem longe.

Estávamos eu e meu colega de classe Sérgio Roberto Milon Aguiar, o grande Beto Santista, a caminhar meio apressados pela calçada que dá vista para o Banhado, quando o Beto exclamou: “LACAZ!, velocidade de Nossa Senhora de Copacabana!”. “Sem maiores explicações, reduzi a marcha e acertei o passo.”

Fotos: Katia Arantes Texto: José Luiz de Souza

Matéria Publicada na Edição Verão 2015 da JLS Magazine

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