FANTASMAS DE GUARATINGUETÁ

Na antiguidade latina, as almas dos familiares mortos, eram amigas e protegiam as casas. Eram os deuses-lares, e toda casa romana tinha um altar para eles. Almas amigas e protetoras. Com o advento do cristianismo, essas almas domésticas, guardiãs da família, desapareceram. Ficaram os fantasmas, amedrontando as pessoas. Talvez fosse bom, seguindo os antigos, voltarmos a fazer as pazes com eles. Parece que gostam de ficar por perto de nós. Conheça alguns deles.

Durante o mês dedicado às almas, já que o Dia de Finados é lembrado em 02 de novembro, a edição verão da JLS Magazine resolveu homenagear aquelas almas que, segundo os mais antigos, continuam a perambular por ruas, corredores, trilhas e antigos edifícios de Guaratinguetá. Não é de hoje que temas como a morte, cemitérios e histórias assustadoras envolvendo fantasmas insistem em povoar o imaginário coletivo, com estórias assustadoras envolvendo lugares e personagens ligados à região: perfumes misteriosos sentidos na madrugada, o ruge-ruge do tafetá de antigos vestidos percorrendo cômodos de velhas casas, torneiras que se abrem sozinhas, portas e janelas batendo estridentes sem o menor sinal de vento.

Alguns cemitérios da região já foram objetos de estudos e serviram de cenário para reportagens e documentários. Os historiadores José Carlos Sebe Bom Meihy (USP) e Robert M. Levine (Universidade de Miami) publicaram em 1983 o trabalho “Tempo e Morte nos Cemitérios do Vale do Paraíba”, estudando túmulos de Taubaté, Aparecida e Guaratinguetá. Antes deles, em 1971, a premiada cineasta Suzana Amaral rodou o curta “Os Mortos Viram Terra” um documentário para a TV Cultura dedicando imagens ao túmulo de Maria Augusta, a bela filha do Visconde de Guaratinguetá, falecida em 1891 e a mais famosa dos “gasparzinhos” que a nossa matéria vai enfocar.

Quem já não sentiu aquele friozinho na coluna e arrepios inexplicáveis ao percorrer os nossos cemitérios vazios, final de tarde? Flores tristes, cruzes, retratos envelhecidos e corroídos, capelas, bustos solenes, anjos melancólicos, nomes fadados ao desaparecimento, flores de plástico desbotadas, imagens quebradas, terços, jazigos de mármore. Um universo bem guardado por muros desgastados e portões de ferro, mas insuficientes para “prender” no local as almas que resolvam vagar por aí. Então vamos logo a elas!

PROCISSÃO DAS ALMAS

Em Guaratinguetá, nem sempre as almas inquietas desfilam sozinhas suas histórias assustadoras. É conhecida, no chamado Alto das Almas, uma procissão que percorre, vez em quando, as ruas da comunidade. Segundo a folclorista Thereza Camargo Maia, “de longe já se escuta o murmúrio das orações dessa procissão sem música, sem cantos, sem sinos. Noite alta, sem data precisa, ela sobe o Morro das Almas e de São João. Pode ser ouvida, mas nunca deve ser vista, já avisavam os antigos moradores do lugar”.

Também são conhecidas as histórias das chamadas “Missas das Almas” ocorridas na Matriz de Santo Antonio. Primeiro campo santo de Guaratinguetá, a igreja ainda guarda em seu chão os primeiros moradores da Vila.

O principal depoimento a respeito foi do conhecido Monsenhor Filippo (1845 -1928), que residia na sacristia da igreja e chegou a testemunhar o fenômeno: acordou no meio da noite com a igreja iluminada e ao som de cantorias e orações. Achou que havia perdido a hora das matinas, mas, ao chegar ao altar, percebeu que as pessoas e religiosos se afastavam ( sem colocar os pés no chão), a luz aos poucos se apagava e, de repente, se viu só, na igreja escura e vazia.

MULHERES DO OUTRO MUNDO

MARIA AUGUSTA

Filha de Francisco de Assis Oliveira Borges, Visconde de Guaratinguetá, ela faleceu aos 26 anos de idade (bem vividos, diga-se de passagem), em Paris, no ano de 1891.

Conta a historia que Maria Augusta foi obrigada pelo pai a se casar, aos 14 anos de idade, com o Conselheiro do Império, Francisco Antonio Dutra Rodrigues, 21 anos mais velho que a bela “menina-moça”. É claro que a moça não teve dúvida: fugiu com um outro – também titular do império e provavelmente mais jovem e bonito -para a Europa, onde freqüentou a alta sociedade francesa até falecer de pneumonia num triste 22 de abril.

Seu corpo, embalsamado, foi transportado para o palacete da família, local onde, mais tarde, funcionaria o Instituto de Educação Conselheiro Rodrigues Alves. Como o mausoléu só chegaria muito tempo depois, o corpo ficou na casa aguardando,com direito a orações e rosários diários ao lado do caixão.

Conta a tradição que uma noite, no palácio, Maria Augusta apareceu em sonho para a irmã pedindo pra ser enterrada. Seu desejo foi atendido assim que chegou a capela tumular, e seu corpo foi transferido para o Cemitério dos Passos.

Apenas o corpo, pois sua alma teria continuado a vagar pelo antigo palacete. Foi vista de branco percorrendo as cinzas do incêndio ocorrido na grande casa e, até hoje, perambula pelos corredores da Escola Estadual Conselheiro Rodrigues Alves. Alunos, professores e funcionários da escola colecionam histórias arrepiantes. Como conhecem os caminhos noturnos de sua alma,deixam abertas as torneiras das pias. Afinal, ela morreu com sede e febre muito alta!

MADAME D’ AGUERRE

O povoado de Aparecida ainda pertencia a Guaratinguetá quando, ao final do século XIX, se instalou, próximo à igreja de Nossa Senhora, uma misteriosa senhora recém chegada da França, que passou a residir no Hotel d’Arlindo, onde, durante muito tempo, viria a funcionar o Hotel Recreio. Sabe-se muito pouco sobre ela, a não ser que era uma excelente pianista, e que, na lápide branca de seu túmulo, no velho cemitério de Aparecida, ainda se lê: “Eterna Saudade de sua Amiga M. de Paula” – gravação quase apagada, datada de 1910.

Pois bem. No mesmo local do Hotel D’Arlindo, iria se instalar o primeiro Seminário Santo Afonso, com a chegada dos padres redentoristas. São do falecido Padre José Pereira os relatos de que inúmeras vezes os seminaristas acordavam assustados ao som do piano que vinha do salão. E como os meninos morriam de medo, o Padre Diretor jogava ali água benta e rezava com eles pela alma da pianista falecida.

INÊS THEODORA

Nascida em 1773, casou-se aos 15 anos com o Capitão Vitoriano José da Costa, teve dez filhos e ficou viúva em 1811, quando passou a se ocupar apenas de atividades religiosas e educacionais. Devota de Santa Rita, não tardou a se dedicar à construção da igreja, inaugurada em 1846, que até hoje se destaca, imponente, no bairro de Santa Rita, em Guaratinguetá.

Dois anos mais tarde, Inês Theodora viria a falecer e, “amortalhada” com o hábito de Irmã terceira de São Francisco, foi sepultada em catacumba na parede lateral da sacristia da igreja que ajudou a construir. Contam os antigos que, certas noites, os moradores do bairro acordam com o ruído de uma carruagem percorrendo suas ruas. Os mais velhos já sabem: é Inês Theodora percorrendo sua antiga chácara, para depois voltar e dormir na igreja que construiu.

UM TESOURO PERDIDO…

Nosso caro leitor poderá até perguntar: não está muito feminista esse direito regional de continuar vagando após a morte? Nada disso!Quem passa de carro diante da antiga sede da Fazenda Morro Vermelho, a meio caminho entre Guaratinguetá e Aparecida, poderá, quemsabe, avistar,na noite escura, a alma do velho Alferes que, por volta de 1710, teria sido assassinado pelos escravos que o acompanhavam no transporte de uma carga de ouro vinda de Minas, com destino ao Porto de Paraty. Os escravos teriam enterrado, diante da sede, tanto o corpo do Alferes como a carga de ouro e plantado ali uma figueira, identificando o local do tesouro.

Histórias arrepiantes, contadas por moradores locais, nunca faltaram nesses trezentos anos, e essa é apenas uma delas. Em noites enluaradas, ruídos de enxadas centenárias ainda procuram o brilho desse ouro desaparecido. Então, é melhor pisar fundo no acelerador e não parar jamais

Fotos: João Athaide Texto: José Luiz de Souza

Matéria publicada na Verão de 2014 na JLS Magazine

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